eternamente

Há algo na minha vida que não me permite estar completamente livre de uma pitada de drama.

Futuramente, prevejo-me de diploma em mãos banalizando os dramas quotidianos de quem ainda não foi ensinado a sofrer.

Gostaria que a ironia me salvasse, mas na verdade a probabilidade mais indesejada aconteceu.

Apesar do que por mim foi dito, através de anteriores reflexões, acabámos por nos enamorar uma terceira vez.

Fingindo não ver as limitações impostas pela doença, estávamos muito felizes um com o outro e, quando tudo corria bem, ele teve uma recaída. Após alguns tratamentos surgiu uma infeliz surpresa que o internou por dias até ao adeus.

Dias de carinho. Dias de amor. Dias de dedicação com um pedido de junção de trapinhos e um compromisso que desposaria os meus 20s de seus projectos. Entreguei-me, até sempre entregue serei.

Por este mundo permaneceram tristes sentimentos confusos, por meio de uma reconfortante dor que viria a preencher um coração escurecido.

deixa

É altura de o deixar ir… Era certa uma data limite, jamais esta amizade poderia sê-lo nunca o tendo sido unicamente.

Nunca me enganei a mim própria, à minha consciência pertenceu o risco de voltarmos a falar, até à recente declaração. É como se tudo tivesse sido em vão para apenas ficar tesão e casamento. We know the first one wasn’t staying forever and the second one was too soon for an unexisting relationship. Cedi ao perigo, iria contorná-lo para ficares por perto. Agora aqui estou, nada perdida, ciente do que tem de ser feito mas de vontade pouco erguida para prosseguir.
Afasta-te. Dizes-me que vais desistir como se eu fosse errada. Entregaste-me o menir e encarregaste-me de colocar aos ombros a nossa futura infelicidade ainda incerta. A contraproposta era todo um panorama que não me pertencia. Os meus sonhos? Numa outra vida, certo.

A dúvida: com qual dos dois pés dou o passo?

ao acreditar

Adormeci derretida, ainda agora revejo continuamente cada momento num loop que me atormenta. O meu estômago sente-se apertado, o meu coração pesado, a minha cabeça implora-me por um pouco mais daqueles olhos de uma ternura transparente, daqueles risos difíceis de arrancar mas tão verdadeiros que me arrepiavam de constrangimento, daquela conversa tão simples, tão fácil, que em 5 horas voou a passo lento… O meu peito aperta acorrentado a estas curtas memórias que me prendem a ti.

Deparei-me com todo um encontro que não previ ser um encontro.

Encontrei confiança de amigo num alguém que procura não ser estranho.

encostei-me a ti

A vontade de voltar para casa era pouca se isso significasse um adeus. Encaminhámo-nos para a praia. Escura, som ao fundo, calma e atacante, uma sonoridade que não nos permitiria o embaraço, à sombra de uma lua que nos esconderia aconchegando, sem espectadores ou constrangimentos num olhar directo.

Em direcção ao mar avançámos, numa conversa calma, pessoal, havíamos perdido o assunto de trabalho para outros mais pertinentes ao nosso interesse. Parámos de pés juntos à borda da água, encontrando um frio desnervosizante. Pelo meu braço direito te senti próximo. Não estávamos capazes de continuar a partilhar palavras, desejávamos o acontecer e receávamos que o travassem.

O meu estômago apertava tanto, mas tanto… a necessidade de te sentir corroía-me por dentro enquanto o instinto me dizia para te afastar, procurando uma irrealista calma frustrante.

Perdida nestes embaraços psicológicos, em ti outra força reinava. Lado a lado, o teu braço nos meus ombros pousou, obrigando-me a mente a estagnar no momento. Rejeitei os meus medos e com a minha mão toquei a tua, acariciando o teu calor em mim. Pouco durou. Fizeste-me perder o raciocínio por instantes, procurei-o no olhar que antes havia evitado. Tocaste-me. Permiti que o teu carinho se ajustasse a minha face esquerda, o teu corpo aproximou-se do meu, ouvi nervosismo na tua respiração, deixaste-me de rastos num último olhar e assim me beijaste.

Invadiste-me, profundo de paixão, num beijo forte, honesto e quente… A cada segundo que passava, o meu desejo por ti aumentava. Numa observação de reacções, um reciproco sorriso envergonhado surgiu. Abraçaste-me num beijo no topo da testa. Senti-me entregue. Senti-me tua. Encostei-me a ti, de coração arrebatado, e assim permanecemos por eternidades mundanas.

sonho

Somos o sonho de alguém, um momento inesperado, a loucura, o prazer e o avançar de uma vida.

Já o tempo é tempo há muito quando descobrimos a nossa existência. Significados se vão encontrando, outros perdendo. Pessoas entram, pessoas saem. No final, nunca seremos quem somos, fomos ou quisemos.

Um dia num sonho nascemos e um sonho um dia seremos.

em ti

Por vezes penso em ti. Olho para mim própria, reponho no meu cérebro uma imagem tua comigo e pergunto-me: exististe?

Penso nisto e um estranho sorriso me aparece por entre bochechas.

Invade-me uma saudade nostálgica por gostar de ti. É a primeira vez que o volto a dizer. Tenho pena da distância que nos separa, mas compreendo que precises dela. Gosto de ti. Respeito-te.

Bom moçoilo com uma dolorosa história, sorri tu para mim.

esquece

Esforcei-me por esquecer. Confundi o meu mundo com os demais para não sentir. Apinhei-me de felicidade alheia, que minha fosse. Assim seria feliz.

A alergia que sentimos perante o nosso passado doloroso, não é senão uma enganosa tentativa de o ultrapassar.

O querer esquecer determina uma necessidade relativa àquele momento, surtindo efeito inverso. É maior o tempo a relembrar o que necessita de ser esquecido, do que aquele que providenciamos ao nosso bem estar.
Não penses em elefantes encarnados. É exactamente a mesma realidade.

A ti, por vezes relembro a tua ausência. Doeu tanto, o tempo que passou passeando em mim… Agora Presente, sinto-o já demasiado longínquo. Como se talvez nada existisse até te tornares doente. Esforço-me por acreditar naquela distante vida recente, que criaste em mim amor, um companheiro, o melhor amigo.

Fugiste e obrigaste-me a fugir. Hoje pergunto-me, de onde vieste e para onde foste? Descubro-me aprisionada em ti, nestes anos passados a teu lado. Um edifício sem paredes, com paixão à queda livre.

Perturbavam-me as promessas de uma vida, os sonhos apaixonados, tentava descobrir quantas dessas seriam cópias de amores passados. Um dia acreditaram.
Porque prometemos na incerteza de um sentimento tão agressivo para com o nosso coração? A fidelidade às nossas próprias palavras raramente nos pertence. Somos um sonho em constante mutação! Vivam perante o momento, longe do futuro. Restará menos pele cortada em sangue, menos certezas descredibilizadas.
Não é o passageiro a origem de uma dor, mas sim as crenças a nós permitidas.

Nisto concluo: a amnésia humana não é voluntária, mera aceitação é tudo quanto baste para uma vida plena.